Eu só queria ser a porra de uma bailarina. Eu nunca pude pedir para a minha mãe pentear meus cabelos ao pé da cama. Eu nunca pude dizer que queria experimentar todas as cores possíveis de batons que a via usando, quando ela saída eu me tornava a mulher da casa. O quarto rosa me custou tantas lágrimas, eu só queria acordar e ver minhas bonecas na prateleira, todas em fileira esperando por minhas mãozinhas, com as unhas feitas pela titia.
Enquanto eu ouvia todos ditando para as outras meninas como elas deveriam se comportar, eu já estava sentada ao lado, com minhas pernas cruzadas e com toda a polidez que existia dentro de mim. Ninguém notou, ninguém me coroou a melhor menina da escolinha. Isso não tem nada a ver com eles, eu estou falando por mim e todo o meu sonho de poder usar um tutu rosa na minha apresentação de balé da turma de 2001, quando eu tinha seis anos, e meus pais estariam lá na primeira fileira aplaudindo a menininha deles, assim que eles me chamariam. Menininha. A dor da minha sapatilha dez anos depois não se compararia com a dor de não ter sido, nunca, aquilo que meu coração pedia para eu ser.
Enquanto eu ouvia todos ditando para as outras meninas como elas deveriam se comportar, eu já estava sentada ao lado, com minhas pernas cruzadas e com toda a polidez que existia dentro de mim. Ninguém notou, ninguém me coroou a melhor menina da escolinha. Isso não tem nada a ver com eles, eu estou falando por mim e todo o meu sonho de poder usar um tutu rosa na minha apresentação de balé da turma de 2001, quando eu tinha seis anos, e meus pais estariam lá na primeira fileira aplaudindo a menininha deles, assim que eles me chamariam. Menininha. A dor da minha sapatilha dez anos depois não se compararia com a dor de não ter sido, nunca, aquilo que meu coração pedia para eu ser.
"Olha mamãe, desenhei uma fada madrinha e essa aqui do lado sou eu, desenhei meu cabelo bem longo como o das moças da tevê e olha meu vestido, não tinha rosa, então pintei de azul", a cor do meu vestido não importaria, eu ainda sim continuaria sendo a menininha deles.
Hoje coloco comprimidos na boca em uma tentativa dolorosa de mostrar para o mundo que eu sou a minha própria menininha, que eu me aplaudo no final de cada apresentação e tenho um lindo tutu rosa guardado dentro de um baú velho com as minhas bonecas.
A minha menininha está cansada de se destruir para mostrar a sua existência. A bailarina que eu nunca fui está no ultimo ato de um espetáculo qualquer, ela está dançando graciosamente enquanto suas penas estão se soltando. Ela está morrendo. No final todos se levantarão e aplaudirão a minha menina caída ao som do último acorde. Despedaçada por dentro. Bravo.
Por uma garota transexual, que nunca pode usar um tutu rosa. Por mim, Lorena Landim.
Lorena Landim

Nenhum comentário:
Postar um comentário