segunda-feira, 23 de fevereiro de 2015

Criticando Cinema: Oscar 2015

  "Sem Grandes surpresas, o Oscar 2015 cumpriu o seu papel com poucos deslizes."


  Ontem ( 22/02) tivemos a maior premiação mundial do Cinema, o famoso ( no Brasil) Oscar.

  O Oscar é o mais conhecido e cobiçado prêmio do cinema hollywoodiano. Oferecido anualmente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (no original: Academy of Motion Picture Arts and Sciences ou AMPAS) desde 1929, o prêmio foi uma idéia de Louis B. Mayer, chefe do estúdio Metro-Goldwyn-Mayer (MGM). No primeiro ano, os ganhadores do troféu iam para a noite de cerimônias já sabendo quem tinha ganhado em cada categoria. Depois, a Academia passou a liberar os vencedores para a imprensa, que poderia estampar suas manchetes na manhã seguinte. Mas tudo mudou depois que o Los Angeles Times  publicou a lista antes da premiação, estragando as surpresas. E assim, desde 1941, os envelopes são abertos apenas na cerimônia de entrega dos prêmios.

  A votação é feita em dois turnos. No primeiro membros da Academia, pessoas ativas no processo de produção de cinema, votam dentro da sua área de atuação e têm direito a um voto também na categoria Melhor Filme. É daí que saem os indicados. Com a lista de candidatos em mãos, os jurados recebem cédulas de votação que vão decidir os ganhadores. Para ser elegível ao prêmio, o filme deve ter ao menos 40 minutos (exceto nas categorias de curtas-metragens), ser exibido em Los Angeles entre os dias 1º de janeiro e 31 de dezembro e ter cópias em 35mm ou 70mm ou digitais de 24 ou 48 quadros por segundo.
  
 A premiação começou a adotar características e gostos bem específicos e até de fácil advinhação, por isso tantos especialistas e críticos já fazem suas apostas para os filmes que possuem mais chances de vitórias. Filmes mais patriotas e que carreguem assuntos pesados, como o racismo, são grandes favoritos para a categoria de Melhor Filme. Grandes transformações físicas ou mudanças de gênero são também bem vistos pela Academia ao cogitar os ganhadores de Melhor Ator/Atriz. Normalmente os filmes que ganham muitos prêmios técnicos possuem grandes possibilidades de não levarem a estatueta de melhor prêmio e até outras premiações servem de "termômetro" para o Oscar.

  Em sua octogésima sétima edição, a premiação já começou muito criticada por ser a "mais branca" premiação do Oscar de todos os tempos. Atores negros não foram cotados para este ano e o único tema sobre os afro-descendentes que tivemos foi o filme Selma, que praticamente não levou nenhum prêmio ( apenas o de melhor canção original por "Glory", por John Legend, Common).
  

  Ao Início do evento tínhamos Neil Patrick Harris ( How I Met Your Mother) como o apresentador principal. A idéia era soltar um ar mais cômico e jovem pelo fato do ator estar em alta com o público mais novo. Com dois musicais ( muito inferior as antigas edições), a premiação apelou para um humor mais light, já que ano retrasado a apresentação de Seth Macfarlane e seu humor negro foram bastantes criticados, mas infelizmente esse ponto deixou a desejar, mesmo com a tentativa vergonhosa de Patrick Harris aparecer apenas de cuecas imitando a cena do filme Birdman em uma tentativa frustada de superar a selfie mais famosa de todos os tempos de Ellen Degeneres na última edição.
  

  Como já previsto a maioria dos Oscars foram para os favoritos, onde apenas tivemos grande surpresa com a premiação de Melhor Ator com Eddie Remayne pelo seu papel em A Teoria de Tudo no lugar de Michael Keaton por Birdman.
  
  A surpresa veio também com Whiplash que faturou prêmios não esperados e também o de Melhor Ator Coadjuvante ( este bem esperado) para J. K .Simmons. Por outro lado, a sorte não estava com Boyhood, o filme que durou doze anos para ser feito, que apenas faturou o prêmio de Melhor Atriz Coadjuvante para Patricia Arquette e ainda deixou um grande discurso em favor da igualdade salarial às mulheres que fez Maryl Streep uivar de felicidade.
  
  Sniper Americano, mesmo com seis indicações, perdeu o fôlego e levou dois prêmios técnicos. Ao contrário de O Grande Hotel Budapeste que rapou por fora a maioria desses tipos de prêmios, algo muito esperado por sinal.

  Um vexame para a Academia foi a categoria de Melhor Animação onde filmes bons, mas não a nível de Oscar estiveram na disputa deixando outros inovadores de fora. Foi o caso de Uma Aventura Lego que só foi representado na categoria de Melhor Canção por Everything Is Awesome, dando lugar a Como Treinar Seu Dragão 2 e Boxtrolls. O grande ganhador foi Big Hero 6, em uma atitude vergonhosa para mais uma vez privilegiar a empresa Disney e seu crescimento recente por causa do filme Frozen. Os grandes injustiçados foram Song of the Sea e O Conto da Princesa Kaguya, que além de não estarem na moda de computação gráfica, trazem histórias muito mais tocantes e profundas.


  Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)  foi o grande vencedor da noite, com quatro estatuetas, incluindo melhor filme, melhor diretor (Alejandro González Iñarritu), melhor roteiro original e melhor fotografia O Grande Hotel Budapeste  também levou quatro estatuetas: melhor figurino, melhor maquiagem, melhor design de produção e melhor trilha sonora.


  Uma das partes mais emocionantes foi a de Lady Gaga cantando e interpretando Song of Music pelos 50 anos que se completa o filme A Noviça Rebelde. A inusitada escolha pela cantora caiu perfeitamente como uma luva ( melhor que a da própria Lady Gaga na premiação) e fez até a atriz Julie Andrews se emocionar e ir parabeniza-la ao palco.


  Sem muitas surpresas, mas cumprindo seu papel o Oscar 2015 foi um bom show. Ficamos agora na espera par ao próximo ano e esperando que a "mesmisse" da Academia mude um pouco.


André Bludeni

Confira abaixo a lista completa dos premiados do Oscar 2015  - os vencedores aparecem em negrito:
Melhor filme
  • Sniper Americano
  • Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) (VENCEDOR)
  • Boyhood - Da Infância à Juventude
  • O Grande Hotel Budapeste
  • O Jogo da Imitação
  • Selma
  • A Teoria de Tudo
  • Whiplash: Em Busca da Perfeição
Melhor diretor
  • Alejandro González Inárritu (VENCEDOR) -  Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
  • Richard Linklater -  Boyhood - Da Infância à Juventude
  • Bennett Miller -  Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo
  • Wes Anderson -  O Grande Hotel Budapeste
  • Morten Tyldum -  O Jogo da Imitação
Melhor atriz
  • Marion Cotillard -  Dois Dias, Uma Noite
  • Felicity Jones -  A Teoria de Tudo
  • Julianne Moore (VENCEDORA) -  Para Sempre Alice
  • Rosamund Pike -  Garota Exemplar
  • Reese Witherspoon -  Livre
Melhor ator
  • Steve Carell -  Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo
  • Benedict Cumberbatch -  O Jogo da Imitação
  • Michael Keaton -  Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
  • Eddie Redmayne (VENCEDOR) -  A Teoria de Tudo
  • Bradley Cooper -  Sniper Americano
Melhor ator coadjuvante
  • Robert Duvall -  O Juiz
  • Ethan Hawke -  Boyhood - Da Infância à Juventude
  • Edward Norton -  Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
  • Mark Ruffalo -  Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo
  • J.K. Simmons (VENCEDOR) -  Whiplash: Em Busca da Perfeição
Melhor atriz coadjuvante
  • Patricia Arquette (VENCEDORA) -  Boyhood - Da Infância à Juventude 
  • Laura Dern -  Livre
  • Keira Knightley -  O Jogo da Imitação
  • Meryl Streep -  Caminhos da Floresta
  • Emma Stone -  Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Melhor roteiro original
  • Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris, Armando Bo (VENCEDORES) -  Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
  • Richard Linklater -  Boyhood - Da Infância à Juventude
  • Dan Futterman, E. Max Frye -  Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo
  • Wes Anderson, Hugo Guinness -  O Grande Hotel Budapeste
  • Dan Gilroy -  O Abutre
Melhor roteiro adaptado
  • Jason Hall -  Sniper Americano
  • Graham Moore (VENCEDOR) -  O Jogo da Imitação
  • Paul Thomas Anderson -  Vício Inerente
  • Anthony McCarten -  A Teoria de Tudo
  • Damien Chazelle -  Whiplash: Em Busca da Perfeição
Melhor longa de animação
  • Operação Big Hero (VENCEDOR)
  • Os Boxtrolls
  • Como Treinar o Seu Dragão 2
  • Song of the Sea
  • O Conto da Princesa Kaguya
Melhor documentário em longa-metragem
  • Citizenfour (VENCEDOR)
  • Vietnã: Batendo em Retirada
  • Virunga
  • A Fotografia Oculta de Vivian Maier
  • O Sal da Terra
Melhor longa estrangeiro
  • Ida (VENCEDOR) (Polônia)
  • Leviatã  (Rússia)
  • Tangerines (Estônia)
  • Timbuktu (Mauritânia)
  • Relatos Selvagens  (Argentina)
Melhor curta-metragem
  • Aya
  • Boogaloo and Graham
  • Butter Lamp
  • Parvaneh
  • The Phone Call (VENCEDOR)
Melhor documentário em curta-metragem
  • Crisis Hotline: Veterans Press 1 (VENCEDOR)
  • Joanna
  • Our Curse
  • The Reaper (La Parka)
  • White Earth
Melhor animação em curta-metragem
  • The Bigger Picture
  • The Dam Keeper
  • O Banquete (VENCEDOR)
  • Me and My Moulton
  • A Single Life
Melhor canção original
  • "Everything is Awesome", por Shawn Patterson, Joshua Bartholomew, Lisa Harriton, The Lonely Island -  Uma Aventura LEGO
  • "Glory", por John Legend, Common (VENCEDORES) -  Selma
  • "Grateful", por Diane Warren - Beyond the Lights
  • "I'm Not Going to Miss You", por Glen Campbell - Glen Campbell: I'll Be Me
  • "Lost Stars", por Gregg Alexander, Danielle Brisebois, Nick Lashley, Nick Southwood -  Mesmo Se Nada Der Certo
Melhor fotografia
  • Emmanuel Lubezki (VENCEDOR) -  Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
  • Robert D. Yeoman -  O Grande Hotel Budapeste
  • Ryszard Lenczewski, Łukasz Żal - Ida
  • Dick Pope - Mr. Turner
  • Roger Deakins -  Invencível
Melhor figurino
  • Milena Canonero (VENCEDORA) -  O Grande Hotel Budapeste
  • Mark Bridges -  Vício Inerente
  • Colleen Atwood -  Caminhos da Floresta
  • Anna B. Sheppard, Jane Clive -  Malévola
  • Jacqueline Durran -  Mr. Turner
Melhor maquiagem e cabelo
  • Bill Corso, Dennis Liddiard -  Foxcatcher: Uma História que Chocou o Mundo
  • Frances Hannon, Mark Coulier (VENCEDORES) -  O Grande Hotel Budapeste
  • Elizabeth Yianni-Georgiou, David White -  Guardiões da Galáxia
Melhor mixagem de som
  • Sniper Americano 
  • Interestelar
  • Invencível
  • Whiplash: Em Busca da Perfeição (VENCEDOR)
  • Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
Melhor edição de som
  • Alan Robert Murray, Bub Asman (VENCEDORES) -  Sniper Americano 
  • Martín Hernández, Aaron Glascock -  Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)
  • Brent Burge, Jason Canovas -  O Hobbit - A Batalha dos Cinco Exércitos
  • Richard King -  Interestelar
  • Becky Sullivan, Andrew DeCristofaro -  Invencível
Melhores efeitos visuais
  • Capitão América 2 - O Soldado Invernal
  • Guardiões da Galáxia
  • Planeta dos Macacos 2 - O Confronto
  • Interestelar (VENCEDOR)
  • X-Men - Dias de Um Futuro Esquecido
Melhor design de produção
  • Adam Stockhausen, Anna Pinnock (VENCEDORES) -  O Grande Hotel Budapeste
  • Maria Djurkovic, Tatiana Macdonald -  O Jogo da Imitação
  • Nathan Crowley, Gary Fettis, Paul Healy -  Interestelar
  • Dennis Gassner, Anna Pinnock -  Caminhos da Floresta
  • Suzie Davies, Charlotte Watts -  Mr. Turner
Melhor montagem
  • Sniper Americano
  • Boyhood - Da Infância à Juventude
  • O Grande Hotel Budapeste
  • O Jogo da Imitação
  • Whiplash: Em Busca da Perfeição (VENCEDOR)
Melhor trilha sonora
  • Alexandre Desplat (VENCEDOR) -  O Grande Hotel Budapeste
  • Alexandre Desplat -  O Jogo da Imitação
  • Hans Zimmer -  Interestelar
  • Gary Yershon -  Mr. Turner
  • Johann Johannsson -  A Teoria de Tudo

domingo, 22 de fevereiro de 2015

Criticando Cinema: Whiplash - Em Busca da Perfeição

  O que diferencia um música bom para um músico sensacional? Em Wiplash - Em Busca da Perfeição, a resposta está não no dom, mas sim na dedicação e no esforço de quem quer alcançar o sucesso.

   No drama musical escrito e dirigido por Damien Chazelle, Milles Teller  (o novo Sr. Fantástico do cinema) vive um baterista de jazz que frequenta uma das melhores escolas de música do mundo. Apaixonado pelo instrumento e desejando ser "grande", ele abraça na primeira oportunidade a chance de trabalhar ao lado do temido maestro Fletcher (J.K. Simmons) em sua prestigiada banda.


  O professor, porém, tem métodos peculiares, especialmente aos olhos superprotetores do mundo de hoje. E não tarda para que sangue e suor, literalmente, comecem a encharcar a bateria enquanto o novato é humilhado de inúmeras maneiras em prol da virtuose.




  O filme chega a ter cenas claustrofóbicas tanto nas horas de solo de bateria como aos ataques de Fletcher, que traz Simmons em um dos melhores trabalhos de sua carreira, alternando seus estados emocionais e mantendo o público eternamente incerto de suas intenções. E Teller acompanha à altura, transformando-se ao longo do filme. 

  Sobre a trilha sonora, é uma obra-prima no jazz, coisa que raramente vemos hoje em dia e apenas se confirma com cada CD de jazz lançado pelo Starbucks ( como o próprio filme alega).

  Ao final, Whiplash surpreende ao falar abertamente sobre como a grandeza só pode florescer com esforço - e que muitas vezes empurrões são mais necessários que tapinhas nas costas. "A pior coisa que aconteceu para o mundo foi essa de ter que elogiar um bom trabalho. Não é a toa que o jazz está morrendo", racionaliza o professor, lamentando que para essa música a transgressão marginal é necessária, o "sangue nos olhos". Na visão de Chazelle, o exagero do politicamente correto em todos os níveis da sociedade merece uns tapas na cara pra criar coragem.





André Bludeni

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Criticando Cinema: Sniper Americano

  Após aos atentados de 2001, um novo gênero de filme foi atualizado, o do patriotismo americano dentro de uma guerra contra o mal. Filmes  que mostravam heróis do exército americano estavam desgastados com o longo tempo que a guerra do vietnã  havia se passado, mas Osama Bin Laden deu um um fôlego a mais para Hollywood produzir filmes onde o Tio Sam e seu senso de Justiça caçam os demônios do mal que suma barbas e turbantes.

  Felizmente, ao longo de quase quinze anos depois dos atentados (e uma saturação desse estilo cinematográfico), o mundo cansou de ver os EUA como apenas os grandes heróis e puseram em questionamento os verdadeiros motivos dessa guerra e as consequências disso tudo, e obviamente isso também se refletiu nas telonas. 


  A lenda do Bem contra o Mal é desmentida e os traumas, desumanização e justiça são os pontos relevantes que chamam a atenção do público mundial, ou seja, o grande cliente hollywoodiano.

  Sniper Americano (American Sniper, 2014) conta essa história de habilidade e bravura, mas também mede o peso da responsabilidade de ser um herói. O filme roteirizado por Jason Hall, baseado no livro escrito pelo próprio Kyle ao lado de Scott McEwen e Jim DeFelice, coloca na balança a vida pessoal do atirador. Contrasta o “Velho Oeste do Oriente Médio”, como descreve um dos soldados, com a sua família nos EUA.


  Clint Eastwood, que assumiu a direção depois que Steven Spielberg deixou a produção por conta do orçamento limitado, constrói o filme como um estudo psicológico do personagem-título. Desfaz o mito para entender não o guerreiro, mas o homem disposto a sacrificar tudo pelo seu país. Troca a grandiloquência da guerra pelas observações intimistas. Ao mesmo tempo, não abandona os elementos de entretenimento, contornando as possíveis restrições orçamentárias ao reproduzir a estrutura de um western no contexto do Iraque, com o encontro de dois atiradores rivais no deserto e os dilemas entre o mocinho e a família.

  Bradley Cooper, que também produz o filme, atesta em cada cena seu comprometimento com a história. O ator mudou seu corpo (ganhou peso e músculos), aprimorou o sotaque texano, ganhou intimidade com rifles e estudou cada trejeito de Kyle. Ainda assim, não escancara o esforço. Sua atuação é natural, contida e explosiva nos momentos certos, retratando perfeitamente um homem que carregava consigo o peso do campo de batalha, mas era incapaz de dividir essas dores com a esposa.

  Do outro lado da balança, Sienna Miller mostra como Taya Kyle acompanhou o processo de desumanização do marido. A ingenuidade dos sonhos heroicos desdobrada na incapacidade de abandonar a guerra. Chris Kyle voltava para casa, mas não saía do Iraque. Miller capta essa desolação, a consciência de estar em último no código que regia a vida do marido - “Deus. Nação. Família.” -, e seu entrosamento com Cooper torna crível a relação que é intrínseca à trama.

  O filme também mostra um outro lado do patriotismo que leva homens e mulheres para a guerra. O amor à nação os acompanha até o alistamento, mas esse conceito abstrato não os sustenta no campo de batalha. A caveira do Justiceiro, que aparece na HQ lida por um soldado para depois ganhar os uniformes e o jipe do pelotão, simboliza essa transformação. A luta passa a ser pelos colegas. O símbolo não é mais a bandeira, mas aquilo que os une em torno do mesmo objetivo, a sobrevivência e a justiça pelo grupo. Se o filme foge da política, sem nunca realmente questionar a guerra, ao menos evita os velhos clichês norte-americanos.

  Para finalizar, o longa traz uma crítica aos soldados e governo americano que perdem a noção do fim e consequentemente perdem a humanização de si próprios. Coisas muito mais valiosas para nós são perdidas em um piscar de olhos enquanto nos preocupamos com coisas que necessariamente não são tão importantes.
   "As vezes as coisas que mais amamos, sãos s que nos destroem." Esse é o resumo da história de Chris Kyle.


André Bludeni