Poucas coisas o irritavam tanto quanto a sensação da ressaca. E dentro desse pequeno universo, tão presente em sua vida, uma coisa o irritava mais, mais do que o pescoço dolorido, a boca seca, o remorso ou a vontade de morrer: abrir os olhos. Tudo era doloroso naquele momento, principalmente a luz adentrando e estuprando as suas pupilas, era como se o sol quisesse forçar a verdade do dia seguinte goela abaixo, só que aqui, por via ocular.
Naquele dia, tudo parecia diferente. O corpo dolorido não se movia, como sempre, mas parecia mais pesado do que o normal. Na boca, sentia como se tivesse engolido um punhado de areia, e tomado uns goles de barro pra ajudar, um pouco mais sofrido do que na sua ressaca padrão. A cabeça vazia, onde só havia uma dor generalizada, mas nada de tristeza, nada de arrependimento, nada. Resolveu abrir os olhos, buscando subir mais alguns degraus na sua rotina masoquista, mas dessa vez, algo estava errado. Ele não encontrou seu quarto. Mais de uma vez ele havia dormido largado em algum outro canto do seu apartamento (certa vez no elevador), mas desta vez ele definitivamente não estava em casa.
Um céu azul sem nuvens deveria transmitir uma sensação de tranqüilidade, mas tudo que causou naquele momento foi pânico. Pânico que se tornou horror ao perceber que não conseguia mover nenhum músculo de seu corpo, nem sequer piscar. Esse é aquele momento em que cinco minutos parecem quinze, e quinze parecem uma eternidade. Era muita coisa pra pensar, assimilar, num mesmo momento, ele jogado ali no chão, encarando o céu aberto onde nada o encarava de volta. Nessa hora o homem abandona tudo a que ele é apegado e apela pra qualquer coisa. O primeiro grito tentado, sem som algum proferido, a força feita pra tentar se levantar e até uma reza desesperada pra algum santo de nome inventado (havia achado muito sensato chutar algum nome de idoso e colocar um ‘São’ na frente, a chance de existir algum santo assim era enorme). Ele ficaria ali por um bom tempo.
Depois de algumas horas, muitos pensamentos e ideias depois, ele percebeu que havia se tornado um prisioneiro do seu próprio corpo. Corpo esse que mal conseguia ver, simplesmente via que ainda estava pela sua visão periférica. Enquanto divagava em pensamentos sobre sua mais nova prisão, um enorme vulto começou a rodear sua visão. Ele não conseguia ouvir quem seria sua companhia, mas conseguia sentir sua presença, quase conseguia sentir seu calor. O urubu pousou a alguns metros de sua cabeça, e andou paralelamente ao seu corpo, num passo desengonçado, como um Carlitos carniceiro, que verificava ali aquele célebre idiota largado no chão. Pronto. Era o que lhe faltava. Uma noite de bebedeira mal terminada, um tombo em algum local ermo e ele seria comido por um urubu. Uma bela maneira de se morrer, digna da grande vida de merda que ele levava. No meio de todos os seus resmungos mundos o silêncio foi rompido:
-Opa, com licença meu chapa!
Dito isso o urubu deu uma primeira bicada em sua perna. Naquele momento ele não sabia o que o havia chocado mais, se era a dor lancinante que o animal havia causado ao tirar um pedaço da sua canela, ou se era o simples fato de ele estar na presença da porra de um urubu falante.
-Relaxa meu querido, isso acontece com todo mundo. – disse o urubu enquanto ainda chacoalhava a cabeça tentando engolir um farto pedaço de canela do ilustre desconhecido.
-Como você consegue falar comigo?
-Não faço ideia meu chapa, mas eu consigo, agora me dá uma licença aqui de novo...
-Espera pelo amor de Deus, espera!
-Chora querido.
-O que diabos está acontecendo?! Eu não sei onde estou, eu não sei o que aconteceu comigo e agora estou conversando com a droga de um urubu sem nem conseguir mexer a boca, simples assim.
-Olha, eu não sou nenhum especialista, mas tá com cara de que você morreu.
-Morri?! Impossível, eu mal saio de casa, a minha maior irresponsabilidade é dormir com a televisão ligada e...
-Blá, blá, blá... – respondendo isso o urubu deu outra bicada em sua canela, agora já com um rombo de respeito.
-PUTA MERDA! PARA DE ME BICAR URUBU DO CARALHO!
-Ah, agora sim você tá falando a minha língua cara pálida. Qual o problema?
-Eu não sei cara, eu tô confuso, não sei bem o que tá acontecendo...
-Olha, vou te dar a letra. Você morreu, ponto. Eu sou um urubu, ponto. Não adianta ficar bolando um monte de coisa se a situação já tá resolvida. Eu não sei o que vai rolar com você depois que a minha fome passar, mas tô na torcida camarada.
-Filho da puta.
O urubu riu e distribuiu mais algumas bicadas, que ainda causavam dor absurda, mas agora pareciam mais e mais naturais. Como se tudo aquilo ocorresse seguindo um roteiro, uma força maior, inalterável, e aqueles dois personagens ali estivessem apenas cumprindo seus papéis, mesmo que eles fossem os de um animal e uma carcaça.
-Bom, terminei meu trampo por aqui amigo, foi um prazer. Tenta manter a cabeça boa pra hora que os outros vierem.
-Outros?!
Enquanto o urubu levantava seu vôo, ele pode perceber que havia outros, inúmeros, sobrevoando o seu corpo em círculos, agora, brevemente dilacerado. Ele conseguia ouvir as vozes de cada um deles, como eles se referiam aquilo de maneira corriqueira, como alguns deles riam de maneiras grotescas e como alguns estavam ali meramente pela aglomeração. Quanto mais eles se aproximavam, mais ele ouvia e mais não queria ouvir. Num último momento, fechou seus olhos e tentou pensar no silêncio, como era bom o silêncio.
Acordou ensopado, urrando de desespero, em seu quarto. Naquele instante, nenhum dos sintomas da ressaca o incomodou. Era bom sentir novamente o espaço ao seu redor, a dor de cabeça matinal, o pescoço travado. Era bom estar ali novamente, ser alguém, mesmo que esse alguém fosse um ninguém. Tomou um longo banho, sem se importar com o atraso no trabalho. No ônibus, todas as pessoas lhe pareciam opacas, como que esperando o tempo passar, sabe-se lá para que. O trabalho naquele dia parecia mais desinteressante do que o normal, e como ainda não havia feito nada de útil, resolveu sair para almoçar. Não sentia tanta fome, mas abandonou de vez a comida e passou a fitar apenas as pessoas ao seu redor. Como elas falavam alto, como gesticulavam, queriam impor sua palavra a todo custo, fosse ela completamente vazia e desnecessária. Pessoas de todo tipo, cada qual com a sua história, rodando naquele picadeiro, e como cada uma cumpria o seu papel, ocupava o seu minúsculo espaço naquele breve instante de história desperdiçada sendo só mais uma parte de um todo decadente. E sentiu uma falta danada de seu urubu.
Gale

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