"Eu...não sei o que estou fazendo aqui..." Creed suspirou e desabou no chão de cansaço. O tombo no chão úmido e frio foi dolorido, mas o cansaço nas pernas latejastes eram maiores. Jack passou os dedos nos cabelos e novamente deu outro suspiro. "O que eu estou fazendo aqui? O que diabos estou procurando? Esperando?".
"O único espírito que esperei ver foi você durante esses anos todos e onde esteve? Apenas enfrentei todos os tipos de entidades sobrenaturais, mas nunca você teve coragem de aparecer para mim! Nunca!" O barulho do pedregulho jogado na lápide foi a única resposta que teve.
"Agora tenho que ficar sentado nessa porcaria de lugar, acompanhados e um anão mal-humorado porquê aquele ser que consegue apenas falar três palavras me mostrou uma foto sua com....aquele...desgraçado!"
Um estalo se ouviu longe e Jack se colocou em estado de alerta segurando seu revólver na cintura. Apertou os olhos para enxergar algo, mas apenas viu um canto correndo e atravessando os túmulos. "Essa é a resposta que você me dá? Um gato correndo?".
O olhar de raiva se transformou em tristeza. O caçador de demônios engatinhou até a lápide e tocou a pedra fria de cabeça baixa. O que mais queria era ver novamente os olhos verdes penetrantes do pai. Assustava qualquer um com sua encarada, mas Jack faria de tudo para ver o pai novamente. enfrentou demônios, lobisomens, vampiros, espíritos e coisas piores apenas para um dia talvez conseguir ter mais uma vez o vislumbre da imagem de Thomas.
"Me perdoe....Perdoe a minha ausência..." Jack poderia jurar que desde o enterro de seu pai não sentia os olhos lacrimejarem. "Eu era apenas um garoto, não entendia direito. Eu...eu senti que você tinha em abandonado por querer, por isso nunca voltei! Ninguém em apoiou! Eu fiz as coisas por conta própria! Posso ter errado muitas vezes, mas fiz do meu jeito, me virei e eu sei que nisso o senhor teria orgulho!"
"Posso não ser o grande caçador Thomas Creed com todo pomposo e com toda sua classe, mas eu sei muito bem o que faço e isso o senhor não teria como negar." Jack abriu um leve sorriso lembrando de como seu pai se vestia e portava. Poderia ser um caçador de demônios, mas era um lord antes de tudo. Sempre muito bem vestido com os melhores ternos, a aparência sempre impecável e muito educado. A barba grisalha era sempre bem rente o cabelo sem um fio despenteado, mas o que era mais chamativo no homem era o perfume francês que borrifava toda manhã no pescoço.
"Bom, aqui estou velho! Fiz minha confissão para o senhor! Mea culpa. Agora o que devo fazer aqui?" Jack abriu um grande sorriso e abriu os braços esperando o que viesse. mas a posição não durou muito já que se assustou com o gato que voltara e começou a se esfregar em sua perna.
"Sai daqui gato fedido! Não está vendo que estou tendo uma conversa com o meu pai?" Jack empurrou o felino com a mão com força. "Desculpa pai, esses animais não sabem respeitar nossas horas de luto e..." Creed olhou rapidamente para o lugar que o gato havia ficado embaixo da lápide, mas algo o prendeu a visão ali. Era como um papel preso entre a pedra e o solo.
Jack, curioso, alisou o gato desta vez para ele se afastar e pode visualizar melhor sobre o que se tratava. Parecia ser uma carta presa. Creed precisou de uma certa força para tirá-la de dentro do buraco.
O papel já estava todo amarelado por causa do tempo e a grafia, bem antiga pelo jeito, também praticamente apagada. Creed teve que apertar bem os olhos para conseguir ler sobre o quês e tratava. Quem poderia ter deixado uma carta para Thomas nesses anos todos? Ele era uma figa esquecida pela história.
"Caro amigo,
Nessas horas vemos realmente que nós, de certo modo, caçadores de bestas, por mais que enfrentemos seres muito mais fortes que nós, temos uma vida frágil como a um cristal. Eu ficarei de luto pelo resto de minha vida por esse assassinato brutal que o distanciou de mim, mas sinto ainda mais pela vida do pequeno Jack que ficará aqui sem pais para acompanhá-lo.
Eu entendo que pediste a mim que não interferisse na criação do garoto e que ele deve seguir os passos sozinho e resolver essa perigo iminente por si só, mas após sua visita na véspera de sua morte em minha casa onde relatou o que lhe afligia, eu temo pelo futuro do garoto.
Nunca fui um homem de desabafos em cartas, mas senti que fazendo este apelo, mesmo você no além, meu coração sossegaria um pouco, pois sou pai e sei como é o pavor de não podemos proteger nossas crias para sempre.
Descanse em paz, meu querido amigo.
M.R."
"M. R.?" Jack apertou os dentes de angústia. Maldito fosse Mortdecai Reid e sua carta. Velho desgraçado! Agora ela era um bom homem? Maldição! Jack de súbito não conseguia mais sentir raiva do velho caçador. Com todas aquelas frases sentimentais e aquele apelo emotivo. Jack se viu numa sinuca.
Então era isso! Essa era a mensagem que Thomas queria dar a Jack. Mortdecai era um bom homem e ele deveria ser perdoado. Grande bobagem! Mas por quê será que o pai pediu para Mortdecai não interferir em sua vida? E que visita inusitada era essa na casa de Reid com direito a revelações bombásticas sobre um suporto perigo? Thomas só trouxe mais perguntas para a cabeça de Jack.
***
Sem Graça estava roendo as unhas quando Jack voltou caminhando com as mãos dentro dos bolsos do casaco com cara de pensativo. "E então? Conseguiu achar o que queria?" Em um salto o anão desceu de uma estatueta de anjo para o chão.
"Pode se dizer que sim..." Jack olhou para o lado ainda pensativo. "Parece que não tem jeito, vou ter que enfrentar Eleanor para ter mais respostas." Ele coçou a barba desgostoso com o que acabara de falar.
Sem Graça acendeu seu vigésimo cigarro da noite e com os olhos semi-cerrados por causa da fumaça murmurou. "E como pretende fazer isso?". De imediato o telefone de Jack apitou com uma mensagem. Uma mensagem de alguém que realmente ele não esperava mais ter contanto.
Cesare, o ilusionista italiano que lhe tentou passar a perna diversas vezes, agora queria voltar para debaixo das asas de Creed. Ele poderia ter acabado com a vida do moleque no bar em que se encontrou com Maya, mas preferiu fingir que não o tinha visto e deixar o fedelho o "vigiar". Uma hora ou outra ele reapareceria e seria útil para Jack. E realmente a hora veio a calhar.
Com um grande sorriso no rosto o caçador de demônios respondeu a seu pequeno amigo. "Eu acho que já sei exatamente como."
André Bludeni

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