quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Destinos Entrelaçados - Capítulo 8: Cesare

  Cesare era um homem, esperto, sagaz. Sua mãe, que Deus proteja a velha, gostava de contar à ele quando criança a história de todos os Cesares que vieram antes dele. Imperadores, líderes do exército, príncipes, e geralmente caras do alto escalão.

  Ele não se sentia exatamente poderoso como um imperador quando deixou a obra abandonada aquela noite.

  Muito pelo contrário, se ele fosse ser sincero consigo mesmo.

  Cesare cruzou os braços, tentando se manter aquecido contra o frio da noite. O vento gelado fazia seus cabelos castanho claros, já normalmente bagunçados, voarem para todos os lados.

  Tudo o que ele queria fazer era se mudar para uma cidade marítima na costa Italiana, sua terra natal, onde ele viveria em uma mansão confortável, cercado por pilhas de dinheiro e algumas garotas bonitas. Claro que seu “emprego” atual não estava rendendo muito, mas certamente encontros aleatórios com criaturas demoníacas eram pedras no caminho até sua mansão dos sonhos.

  Uma sequência de xingamentos passou pela sua cabeça.

  Ele enfiou a mão no bolso de sua jaqueta de couro puída e tirou de lá um telefone antigo – Cesare não acreditava muito em novas tecnologias, ainda por cima telefones com nomes de frutas que eram caros. Sabe quanta coisa dá para comprar com essa grana?

  “Quero participar de seja lá o que você estiver fazendo”, ele digitou rapidamente. Cesare fitou a mensagem por um tempo antes de apertar enviar. Houve um tempo de sua vida, alguns anos atrás, em que se orgulhara de ter Jack Creed em sua discagem rápida. Desde então, ele já se arrependera disso mais vezes do que poderia contar.

  Cesare apertou enviar, enquanto mais uma sequência de xingamentos se materializou em sua mente. 
Calmamente, ainda relativamente em choque, andou até onde Bianca estava esperando por ele na esquina.

   Bianca era um Impala preto, de 1967, o primeiro amor da vida de Cesare e seu bem mais valorizado. Todas as peças haviam sido cuidadosamente escolhidas por ele, e aos Sábados de manhã os dois saíam para um passeio seja lá onde estivessem. Poucas pessoas além dele mesmo já haviam tido o prazer de sentar no banco do copiloto.

   Ele sorriu ao se sentar nos bancos de couro, como normalmente fazia. “Bianca, Bianca,” ele murmurou enquanto dirigia, procurando algum hotel no qual pudesse passar a noite. “A gente tá ferrado, como de costume.”

   Cesare tinha acabado de ver um homem ser sufocado em sua frente. Por uma espécie de demônio japonês. Por causa de algumas moedas.

   Ele jogou a cabeça para trás e deixou escapar uma gargalhada de nervosismo. Alguns pedestres olhavam assustados para o jovem dirigindo o carro.

   Cinco minutos se passaram até que Cesare conseguisse se recompor, e ele segurou o volante com mais força, seu instinto de sobrevivência que o guiara até ali falando mais alto.

   Cesare sabia que não era bom em fazer planos, improvisação era sua área. Mas disso Jack Creed entendia, e o caçador de demônios certamente não diria não para a ajuda de um ladrão e infiltrador experiente.

    Ninguém precisava saber que depois de sair do museu a quinta moeda tinha ido para a casa de um colecionador. E ninguém precisava saber que Cesare tinha roubado aquela mesma moeda, e a utilizado em diversos truques de mágica até entregá-la para a garota dos olhos de cores diferentes que havia transformado suas pernas em gelatina e feito seu coração bater mais forte.

     Ninguém, especialmente Elanor, precisava saber disso.




Julia Basseto





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