Cesare era um homem,
esperto, sagaz. Sua mãe, que Deus proteja a velha, gostava de contar à ele
quando criança a história de todos os Cesares que vieram antes dele.
Imperadores, líderes do exército, príncipes, e geralmente caras do alto
escalão.
Ele não se sentia exatamente
poderoso como um imperador quando deixou a obra abandonada aquela noite.
Muito pelo contrário, se ele fosse
ser sincero consigo mesmo.
Cesare cruzou os braços, tentando se
manter aquecido contra o frio da noite. O vento gelado fazia seus cabelos
castanho claros, já normalmente bagunçados, voarem para todos os lados.
Tudo o que ele queria fazer era se
mudar para uma cidade marítima na costa Italiana, sua terra natal, onde ele
viveria em uma mansão confortável, cercado por pilhas de dinheiro e algumas
garotas bonitas. Claro que seu “emprego” atual não estava rendendo muito, mas
certamente encontros aleatórios com criaturas demoníacas eram pedras no caminho
até sua mansão dos sonhos.
Uma sequência de xingamentos passou
pela sua cabeça.
Ele enfiou a mão no bolso de sua
jaqueta de couro puída e tirou de lá um telefone antigo – Cesare não acreditava
muito em novas tecnologias, ainda por cima telefones com nomes de frutas que
eram caros. Sabe quanta coisa dá para comprar com essa grana?
“Quero participar de seja lá o que
você estiver fazendo”, ele digitou rapidamente. Cesare fitou a mensagem por um
tempo antes de apertar enviar. Houve um tempo de sua vida, alguns anos atrás,
em que se orgulhara de ter Jack Creed em sua discagem rápida. Desde então, ele
já se arrependera disso mais vezes do que poderia contar.
Cesare apertou enviar, enquanto mais
uma sequência de xingamentos se materializou em sua mente.
Calmamente, ainda
relativamente em choque, andou até onde Bianca estava esperando por ele na
esquina.
Bianca era um Impala preto, de 1967,
o primeiro amor da vida de Cesare e seu bem mais valorizado. Todas as peças
haviam sido cuidadosamente escolhidas por ele, e aos Sábados de manhã os dois
saíam para um passeio seja lá onde estivessem. Poucas pessoas além dele mesmo
já haviam tido o prazer de sentar no banco do copiloto.
Ele sorriu ao se sentar nos bancos
de couro, como normalmente fazia. “Bianca, Bianca,” ele murmurou enquanto
dirigia, procurando algum hotel no qual pudesse passar a noite. “A gente tá
ferrado, como de costume.”
Cesare tinha acabado de ver um homem
ser sufocado em sua frente. Por uma espécie de demônio japonês. Por causa de
algumas moedas.
Ele jogou a cabeça para trás e
deixou escapar uma gargalhada de nervosismo. Alguns pedestres olhavam
assustados para o jovem dirigindo o carro.
Cinco minutos se passaram até que
Cesare conseguisse se recompor, e ele segurou o volante com mais força, seu
instinto de sobrevivência que o guiara até ali falando mais alto.
Cesare sabia que não era bom em
fazer planos, improvisação era sua área. Mas disso Jack Creed entendia, e o
caçador de demônios certamente não diria não para a ajuda de um ladrão e
infiltrador experiente.
Ninguém precisava saber que depois
de sair do museu a quinta moeda tinha ido para a casa de um colecionador. E
ninguém precisava saber que Cesare tinha roubado aquela mesma moeda, e a
utilizado em diversos truques de mágica até entregá-la para a garota dos olhos
de cores diferentes que havia transformado suas pernas em gelatina e feito seu
coração bater mais forte.
Ninguém, especialmente Elanor,
precisava saber disso.
Julia Basseto

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