Lá estava Maya em pé há mais de quarenta minutos. O frio seco da manhã chegava a doer os ossos dando a impressão que o sobretudo cor de vinho e aveludado que vestia não estivesse ajudando em nada.
Maya tremia, muito por causa da temperatura, mas também pela situação. nunca imaginou que passaria por uma situação dessas. Estava se sentindo uma espiã da CIA naquele beco abandonado. As paredes todas grafitadas e um silêncio absurdo.
Jack havia marcado de encontrá-la no local para finalizar as negociações e acertar o plano para o roubo da moeda, mas, obviamente, o caçador de demônios estava atrasado. Talvez fosse parte do plano dele deixá-la esperando para ver se existia alguma desistência de sua parte, mas Maya preferiu ficar esperando.
O salto já lhe machucava os pés e ela daria tudo por uma xícara de chá quentinho naquele gelo que ela se encontrava. Preferiu então admirar os gravites para o passar o tempo. Poderia ter ficado horas se perdendo naquele mundo de cor e formas se não fosse Eleanor resmungando dentro da sua orelha.
"E aí? Algum sinal desse desgraçado?" Ela parecia mais ansiosa que a própria Maya.
A moça discretamente apertou o ponto colocado no seu ouvido. "Se tivesse algum sinal dele, você saberia, não concorda?"
"Va saber...Já tentou me trair uma vez! Não custa anda virar a casaca e se aliar de novo a Creed para me passar a perna."
Maya se irritou e virou de frente para o Café que havia na frente do beco. "Você consegue me ver perfeitamente de dentro desse lugar! Saberia se Jack estava aqui, sua tapada!" Maya encarou Eleanor que estava sentada na bancada de frente ao vidro da loja espionando o beco.
" Olha só! A lady se irritou e vai querer me agredir verbalmente?" Eleanor riu e deu um gole no seu café americano. "Só estou brincando com a sua cara, mulher! Fique e atenta e pare de olhar para cá! pode criar desconfiança dele!"
Maya se virou irritada ainda com a mão na orelha. "Eu não nasci para essas coisas Elly! Não sou espiã! Era bem mais fácil eu ter vindo sozinha e combinado as coisas com ele sem você bisbilhotando tudo. Você vai pegá-lo no museu de qualquer jeito! Ou esqueceu que preciso dele para pegar a moeda?"
"Eu sei, eu sei. Eu só quero ver a cara desse desgraçado e ter certeza que você não vai omitir nada de mim." Eleanor deu mais um gole no café e pegou um binóculo do casaco para enxergar melhor o beco. "E tira a mão do ponto. Não precisa segurá-lo para me ouvir ou falar comigo."
Maya respirou fundo para se acalmar e tirou a mão sorrateiramente da orelha. A moça ficou mais alguns segundos olhando os gravites até ouvir o barulho de um motor de carro parando nas suas costas. Agora ela tremia mais e o coração parecia que ia sair pela boca. Precisou de alguns segundos para criar coragem e se virar, mas a surpresa não foi das mais agradáveis.
O homem que saia do carro não era Jack Creed. Era mais novo e bem mais bonito que Jack. Tinha os cabelos castanhos claros presos em um rabo de cavalos uma barba para fazer bem charmosa. A roupa era antiga e puída, principalmente o colete de seda, mas com toda a certeza era charmoso.
Quando desceu do Impala preto, o rapaz também criou desconfiança e colocou a mão no bolso segurando algo e fazendo menção a voltar para o carro, mas Maya o intercedeu com uma pergunta.
"Quem é você? É amigo de Jack?"
O homem parou no caminho e olhou para a moça, desta vez mais interessado. "Depende... Você veio em nome dele?"
"Eu...não sei direito..." Maya abriu um sorriso carinhoso e envergonhado ao homem. "Prazer, Maya."
"Cesare..." o homem, ainda desconfiado, deu a volta no carro e se aproximou de Maya.
"Cesare? Nossa! Bonito nome. Uma vez eu conheci um Cesare na época da faculdade, mas..."
"Você! Parado! Se tentar algo, prometo explodir sua nuca e deixar os grafites desse beco ainda mais coloridos com os seus miolos!" Eleanor apareceu do nada segurando seu rifle e apontando para a cabeça de Cesare há alguns metros de distância. "Vira para mim devagar e sem fazer nenhuma besteira."
Cesare se virou calmamente, mas com os olhos arregalados e sorrindo. "Eu realmente adoro seu jeito de abordar as pessoas Eleanor." O mágico parecia fascinado em ver sua musa na sua frente, mesmo tendo um cano de ferro apontado para sua testa.
Eleanor, incrédula, abaixou o rifle boquiaberta, mas sem nenhuma palavra que saísse. Como aquilo era possível? Faia tanto tempo que não via Cesare e agora ele estava alí, na sua frente e sorrindo com aquele charme todo. "Isso não está certo, isso não está certo!"
Cesare sorriu e delicadamente colocou o cano do rifle para o lado com a mão. "Você continua linda, Eleanor."
"O quê está acontecendo aqui? Você conhece ele Elly?" Maya interferiu enciumada e se aproximando do casal.
"Há mais tempo do que imagina Srta. Maya." Os olhos de Cesare não fugiam da beleza de Eleanor que ainda tentava juntar os fatos com uma teoria concreta.
Maya se colocou ao lado deles e levantou uma sobrancelha "Então você trabalha para Jack. O que ele mandou você nos repassar?"
O mágico olhou para Maya, desta vez confuso. "Eu não trabalho para Jack! Pelo menos não mais, mas isso não vem ao caso. Eu imaginei que vocês trabalhavam para ele."
"Deve ter tido algum engano. Ele pediu para virmos aqui encontrá-lo neste beco..."
"...às seis e meia da manhã..." Cesare completou Maya criando uma desconfiança.
"Ele não marcou encontro com ninguém. O desgraçado só juntou as presas dele em um local só." Eleanor conseguiu pela primeira vez raciocinar e concluir seu pensamento.
"Viu, Sem Graça? Eu disse que seria a coisa mais fácil do mundo juntar esses palhaços num buraco só!" Jack Creed gritou para todos ouvirem de cima das escadas de incêndio do prédio encostado ao muro grafitado junto ao anão. Estava sentado descontraídamente, orgulhoso e sorridente enquanto observava os três abaixo dele. Aquele-Que-Sabe saiu do nada também e parou na saída do beco impossibilitando a fuga de qualquer um dos três que cogitasse tal idéia.
O sorriso de Creed se transformou em uma feição de medo e surpresa quando Eleanor lhe apontou o rifle e Cesare puxou uma pistola também a apontando para o caçador de demônios.
"Por essa você não esperava.." Sem Graça, sem mostrar nenhuma reação respondeu a Creed enquanto acendia um cigarro.
"Desça agora dessas escadas, seu cão sarnento! Eu vou lhe abrir o peito e tirar seu coração pelo o que me fez." Eleanor rugia de raiva enquanto mirava certeiramente no meio dos olhos de Creed. Sem perder a pose, Creed saltou para o chão com um sorriso sarcástico no rosto.
"Veja como são as coisas. Vocês três querendo passar a perna em mim e eu os peguei na armadilha mais antiga que existe. Onde está a caçadora cheia de histórias agora, Eleanor Reid?" Jack caminhava pelos três.
Eleanor teria voado em cima de Jack se Cesare não a tivesse segurado. Após acalmá-la virou-se para Jack simpaticamente. "Parabéns Jack! Você nos pegou. O que pretende agora? Pois, pela minha conta nós somos em três e você..." Cesare olhou para o caçador de demônios e ao anão mal-encarado apontando novamente sua pistola "....um e meio."
Cesare teria avançado mais se não tivesse sentido a pistola de Jack em sua barriga. Sem Graça também já estava armado com Maya em sua mira. O mágico parou e percebeu que Aquele-Que-Sabe estava atrás de Eleanor segurando um canivete enferrujado. "Então você trouxe companhia, Creed. São seus amigos?"
"Não." Os olhos amarelos de Aquele-Que-Sabe se voltaram para Cesare sem o resto do corpo se mexer um centímetro.
Jack engoliu seco e desconfortável. "Eu realmente não esperava um Sim, sua lacraia albina, mas um Indiferente não faria mal no momento."
Eleanor deu um passo para frente e apontou, junto a Cesare, sua arma para Creed. "Pagamos o dobro para nos ajudarem a sumir com esse maldito."
Sem Graça e Aquele-Que-Sabe se entreolharam. O homem esguio baixou o canivete e o anão virou seu revólver para o caçador de demônios. Jack se viu rodeado de armas agora e engoliu seco.
"Bem, tenho que admitir que foi uma boa jogada Reid. Mas..." Jack deu um passo para trás ligeiramente enquanto guardava sua pistola. "...fico a imaginar como será o plano de vocês após se livrarem deste cão sarnento e maldito. Irão me matar, me despachar, invadir o museu, encontrar a moeda maia e só então se darão conta e lamentarão por terem sumido com o grande Jack Creed e não saberem como roubá-la."
Maya arregalou os olhos e se colocou na frente das armas com os braços abertos protegendo o caçador de demônios. "Não atirem! Nós precisamos dele!"
Sem Graça e Aquele-Que-Sabe abaixaram suas armas, mas Cesare permaneceu imóvel "Srta. Maya, acredite em mim, não precisamos dele para termos a moeda. Vamos dar um jeito."
"Você me garante isso?" Maya ainda desconfiava da afirmação de Cesare.
"Pode confiar, minha querida" O sorriso foi o suficiente para Maya sair da frente de Jack e dar liberdade para Eleanor e Cesare fazerem o que bem entendessem. Aquele-Que-Sabe e Sem Graça voltaram a levantar suas armas.
"E após consegui'-las e juntá-las, irão saber como fazer para alcançarem a tão desejada imortalidade?" Jack sorria para Cesare.
"O quê? Imortalidade?" Agora fora a vez de Eleanor abaixar o rifle confusa. "Você sabia disso Maya?"
"Bom...então..." A moça era péssima para mentir.
"Como pode esconder isso de mim? Eu confiei em você!" Reid apontou o rifle dessa vez para Maya que se escondeu atrás de Cesare.
"Calma! Eu ia te contar depois!"
Sem Graça e Aquele-Que-Sabe abaixaram as armas pela terceira vez.
"Espere! Como VOCÊ sabe disso Creed?" Maya indagou.
"Eu não vou roubar algo que não tenho noção do que seja. Obviamente fui atrás para saber o paradeiro dessas moedas." Jack começou, cuidadosamente, mas sem tirar os olhos de Cesare, a rodear o grupo enquanto falava. "Um jogo de moedas maias, feitas pelas mãos dos deuses mais antigos e do metal mais puro. Prometidas a pessoa digna de superioridade igual as tão almejadas e divinas. A simples imortalidade e o título de um deus. Uma vez em posse e feito o ritual correto, será um deus...eternamente." As palavras de Jack pareciam hipnotizar Cesare o prendendo em seus sonhos.
As mãos de Jack tocaram suavemente os ombros do mágico por trás enquanto o caçador de demônios continuava sua lavagem crebras em tom suave e próximo ao ilusionista. "Imagine isto! O Grande Cesare, o homem imortal! Um deus na terra de homens!"
Cesare sorriu e se virou para Jack. "Ok. Você me convenceu. Bem-vindo ao grupo!".
Jack abriu um grande sorriso satisfeito, ao contrário de Eleanor que parecia incrédula com a persuasão de Creed. "Eu juro que não estou acreditando nisso! Ele era nosso alvo e agora faz parte de um grupo nosso que nem ao menos fazia noção de existir? O que eu ganho com isso? Eu estou me lixando para essas moedas! Eu quero Jack morto!"
Cesare, carinhosamente, sorriu para Eleanor. "Pegamos as moedas e fazemos o ritual. Depois disso te entregamos Jack para fazer o que quiser.". Foi o suficiente para Eleanor aceitar, mesmo de mal gosto.
"E eu? Onde entro nessa história?" Foi a vez de Jack indagar.
"Você ganha o direito de viver mais algum tempo, seu miserável." Eleanor puxou algemas de seu bolso e prendeu os pulsos de Creed.
"Viu? Todo mundo feliz. Maya terá suas peças e eu...bem....eu vejo depois o que quero" Cesare comemorava internamente, mas ao se virar se deparou com a figura esguia,cinza e tatuada acompanhada do fiel escudeiro anão.
"E vocês? O que querem?"
"Indiferente..." Aquele-Que-Sabe respondeu em seu habitual tom arrastado.
"Nada específico?" Maya tentou aprofundar mais a conversa.
"Não."
"Esqueçam tentar tirar algo dele que não seja Sim, Não ou Indiferente." Sem Graça já se adiantou para não prolongar aquela mesma situação.
Cesare abaixou o olhar para a figura pequena e carrancuda na sua frente. "Vocês vão nos acompanhar?"
"Não temos mais nada o que fazer, então sim."
"E o que vão querer em troca?"
"Vemos isso depois. Só não vamos sair de mãos abanando."
Com o rifle apoiado no ombro e puxando Jack, Eleanor trombou em Cesare reclamando. "É perda de tempo discutir isso. Está óbvio que vão nos acompanhar. A questão agora é arranjarmos a última moeda."
Para Cesare, que sabia do verdadeiro paradeiro da quinta moeda, a questão era outra. "Na verdade precisamos passe em outro lugar antes de irmos atrás da moeda."
"Onde?" Maya se adiantou de forma charmosa para cima de Cesare.
"Precisamos ver um velho amigo meu e de Jack."
"E podemos saber quem?" Eleanor já estava se cansando daquela falação toda.
Cesare sorriu maliciosamente para Jack. "Lua Cheia."
O nome pronunciado fez Jack gelar a alma, abrir a boca sem conseguir pronunciar nada. Aquele-Que-Sabe e Sem Graça também se espantaram com o que acabaram e ouvir a ponto do cigarro do não cair de sua boca ao chão.
André Bludeni

Nenhum comentário:
Postar um comentário