quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Criticando Cinema: Sniper Americano

  Após aos atentados de 2001, um novo gênero de filme foi atualizado, o do patriotismo americano dentro de uma guerra contra o mal. Filmes  que mostravam heróis do exército americano estavam desgastados com o longo tempo que a guerra do vietnã  havia se passado, mas Osama Bin Laden deu um um fôlego a mais para Hollywood produzir filmes onde o Tio Sam e seu senso de Justiça caçam os demônios do mal que suma barbas e turbantes.

  Felizmente, ao longo de quase quinze anos depois dos atentados (e uma saturação desse estilo cinematográfico), o mundo cansou de ver os EUA como apenas os grandes heróis e puseram em questionamento os verdadeiros motivos dessa guerra e as consequências disso tudo, e obviamente isso também se refletiu nas telonas. 


  A lenda do Bem contra o Mal é desmentida e os traumas, desumanização e justiça são os pontos relevantes que chamam a atenção do público mundial, ou seja, o grande cliente hollywoodiano.

  Sniper Americano (American Sniper, 2014) conta essa história de habilidade e bravura, mas também mede o peso da responsabilidade de ser um herói. O filme roteirizado por Jason Hall, baseado no livro escrito pelo próprio Kyle ao lado de Scott McEwen e Jim DeFelice, coloca na balança a vida pessoal do atirador. Contrasta o “Velho Oeste do Oriente Médio”, como descreve um dos soldados, com a sua família nos EUA.


  Clint Eastwood, que assumiu a direção depois que Steven Spielberg deixou a produção por conta do orçamento limitado, constrói o filme como um estudo psicológico do personagem-título. Desfaz o mito para entender não o guerreiro, mas o homem disposto a sacrificar tudo pelo seu país. Troca a grandiloquência da guerra pelas observações intimistas. Ao mesmo tempo, não abandona os elementos de entretenimento, contornando as possíveis restrições orçamentárias ao reproduzir a estrutura de um western no contexto do Iraque, com o encontro de dois atiradores rivais no deserto e os dilemas entre o mocinho e a família.

  Bradley Cooper, que também produz o filme, atesta em cada cena seu comprometimento com a história. O ator mudou seu corpo (ganhou peso e músculos), aprimorou o sotaque texano, ganhou intimidade com rifles e estudou cada trejeito de Kyle. Ainda assim, não escancara o esforço. Sua atuação é natural, contida e explosiva nos momentos certos, retratando perfeitamente um homem que carregava consigo o peso do campo de batalha, mas era incapaz de dividir essas dores com a esposa.

  Do outro lado da balança, Sienna Miller mostra como Taya Kyle acompanhou o processo de desumanização do marido. A ingenuidade dos sonhos heroicos desdobrada na incapacidade de abandonar a guerra. Chris Kyle voltava para casa, mas não saía do Iraque. Miller capta essa desolação, a consciência de estar em último no código que regia a vida do marido - “Deus. Nação. Família.” -, e seu entrosamento com Cooper torna crível a relação que é intrínseca à trama.

  O filme também mostra um outro lado do patriotismo que leva homens e mulheres para a guerra. O amor à nação os acompanha até o alistamento, mas esse conceito abstrato não os sustenta no campo de batalha. A caveira do Justiceiro, que aparece na HQ lida por um soldado para depois ganhar os uniformes e o jipe do pelotão, simboliza essa transformação. A luta passa a ser pelos colegas. O símbolo não é mais a bandeira, mas aquilo que os une em torno do mesmo objetivo, a sobrevivência e a justiça pelo grupo. Se o filme foge da política, sem nunca realmente questionar a guerra, ao menos evita os velhos clichês norte-americanos.

  Para finalizar, o longa traz uma crítica aos soldados e governo americano que perdem a noção do fim e consequentemente perdem a humanização de si próprios. Coisas muito mais valiosas para nós são perdidas em um piscar de olhos enquanto nos preocupamos com coisas que necessariamente não são tão importantes.
   "As vezes as coisas que mais amamos, sãos s que nos destroem." Esse é o resumo da história de Chris Kyle.


André Bludeni

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