segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Destinos Entrelaçados: Capitulo 7 - Uma Noite Escura

  Os três caminhavam em silêncio na noite fria. Os olhares não se cruzaram em nenhum momento e Jack poderia jurar que também não tinham um destino certo. Apenas caminhavam pelas ruas que com o tempo gélido e o anoitecer foram ficando cada vez mais desertas.

  Após uma hora de caminhada, Aquele-Que Sabe parou subitamente e, com sua cara de sono habitual, deu um forte respirada enchendo os pulmões de ar. Sem Graça parou ao lado do amigo, mas sua atenção estava voltada para a barata que atravessava a rua.

  Jack olhou os dois e em seguida parou para observar melhor o lugar que pararam. 

  Estavam na frente de um muro de concreto cinza todo pichado e mal cuidado. Mais a frente, um grande portão de metal com a pintura negra quase descascada por completa.Jack reconheceria aquele portão em qualquer lugar. Mesmo tendo passado mais de trinta anos, aquele era o portão que sempre aparecia em seus pesadelos mais antigos.

  Os olhos do caçador de demônios voltou para Aquele-Que-Sabe o fuzilando com o olhar. 

"Por quê me trouxe aqui? Se eu quisesse visitar a porra do túmulo do meu pai, na porra desse cemitério, eu viria sozinho, não acha?"

  "Indiferente" O homem magricela se encostou no muro e brincava com os pés sem mudar a feição.

  Jack precisou respirar fundo para não voar novamente no pescoço tatuado da figura a sua frente. Aquela palhaçada estava passando dos limites. O que tudo aquilo tinha a ver com a foto que vira poucas horas atrás no bar?

  "Você quer mesmo que eu entre?" Jack tentou forçar um sorriso.

  "Sim..."

  "E nós vamos mesmo no túmulo do meu pai? Aliás...você vai entrar né?" Um certo aperto no estômago, que Jack não sentia há anos, votou a irritá-lo. Será que aquilo era....medo?

  "Sim e não."

  Pelo menos ele tinha tirado um "e" daquele maldito. 

"Sem chances! Eu não vou entrar sozinho nessa pocilga. Pode esquecer! Eu posso entrar em tumbas, casas amaldiçoadas, outros milhões de cemitérios, mas neste nunca mais! Eu passei anos enfrentando demônios, espíritos, entidades e seres que você nem imagina que existem, mas o túmulo do velho...eu...eu não vou!"

  "Eu vou com você."

  A voz de Sem Graça era muito mais grossa do que Creed lembrara ser. O anão acendeu um cigarro e caminhou até o caçador de demônios.

  "Se não consegue ir sozinho, eu lhe acompanho." Foi a primeira vez que Jack parou realmente para observar o ser pequeno que tinha na sua frente. O sotaque tinha um toque francês. Curiosamente, mesmo tendo menos de um metro de altura, a figura não tinha traços de anões. Parecia apenas um homem normal, só que muito pequeno. O rosto era marcado já pela idade avançada dos quarenta anos, mas ficava pior por ser carrancudo e pelo bigode negro, com fios grisalhos, embaixo do grande nariz pontudo. A roupa deveria ter sido algum dia bem colorida, mas agora era tão desbotada que quase tudo tinha a mesma cor bege. Um macacão de jeans, uma camisa xadrez, um sapato bem maior que seus pés e um boina com um grande remendo na frente.

  Depois de dar uma grande tragada e soltar a fumaça, o anão resmungou: "Nós vamos entrar ou não?"

  Jack olhou a figura um pouco inconformado. "Você precisa que eu te carregue?"

  Sem Graça o xingou em francês e tomou a frente para entrar. Jack Creed apenas o seguiu e entrou de uma vez para não desistir de última hora.

  O caçador de demônios teve uma dificuldade muito maior que anão para pular o muro. Sem  Graça parecia um pequeno babuíno trepando a haste de metal e saltando para o outro lado.

  Jack caiu feito um imbecil de bunda no chão e deu de cara com Sem Graça em pé na sua frente lhe estendo a minúscula mão. "Você precisa que eu te carregue?" Finalmente o serzinho deu um leve sorriso.

  "O que você não tem de altura, tem de graça, né pequeno demônio? Continue me zoando e eu juro que te coloco dentro de uma caixa e te envio de volta para a fábrica de chocolate que você fugiu."

  O caminho de terra estava completamente escuro, mas parecia que o anão já estava habituado com o cemitério da cidade. Caminhava naturalmente sem necessidade de luz para lhe guiar.

  "Diga-me, pequeno amigo, você e Aquele-Que-Sabe se conheceram aonde? Faz tempo?"

 Jack queria quebrar o gelo e não pensar realmente no local que se encontrava. Aquele lugar lhe dava calafrios.

  "E isso faz diferença para você? Estamos juntos há mais tempo do que queríamos e há mais tempo do que imaginamos." Sem Graça jogou a bituca de cigarro no chão e nem se deu ao trabalho de olhar para Jack.

  "Se eu fosse apostar diria que se conheceram em algum circo. Desses que viajam o mundo apresentando aberrações."

  Sem Graça parou de andar e encarou Jack de um jeito que o caçador de demônios chegou a engolir seco. "Calma! Foi só uma piada..."

  O anão voltou a caminhar e Jack a tagarelar. "Sabe, eu já estive num desses circos. A trabalho. Não no circo, obviamente. Eles apresentavam um homem-vampiro. Era um fedelho de vinte anos trancado em uma jaula que chupava o sangue das galinhas que eles jogavam para ele no meio do show. Era o clímax daquela joça. Mal sabiam eles que estavam andando com um garoto possuído. Eu tive que exorcizar o moleque por quê a porcaria da entidade estava ficando cada vez mais forte e..."

  "Pode se calar, por favor?" Sem Graça quase grunhiu se segurando de raiva.

  "Ok, desculpa. Não queria te irritar...Aliás, nunca agradeci aquela vez que você e Aquele-Que-Sabe me deram a direção correta para fugir do sarcófago em que o padre canibal escondia as vítimas. Isso já faz tanto tempo...Acho que você não tinha esse bigode ainda..."

  "Calado!" O grito de sem Graça fez Creed dar um pulo de susto. 

  Os haviam parado no local mais escuro do cemitério. O frio chegava a fazer doer as dobras do corpo. O céu estava limpo, com uma lua tão brilhante que as árvores secas faziam sombras no chão três vezes maiores que suas donas.

O anão respirou fundo e com os pequenos dedos que pareciam salsichas aperitivos apontou uma direção. "Você se lembra qual é?"

  Jack olhou o corredor de lápides seriamente e suspirou. "Como esquecer se a vejo todas as noites em meus pesadelos?"

  "Você deve ir sozinho até lá. Eu vou esperar você aqui. Tome o tempo que precisar."

  "E o que eu devo fazer? Olhar o túmulo e chorar?" Jack falou com um pesar na voz.

  "Isso você fez há mais de trinta anos atrás. Hoje você vai conversar com ele." Sem Graça acendeu outro cigarro.

  "E se eu não quiser conversar com ele?"

  "Ele está esperando há muito tempo por isso."

  Creed caminhou vagarosamente até a quinta lápide, a mais suja e abandonada. A cada passo, aquele noite tão aterrorizante voltava a sua mente. O sangue vermelho vivo de seu pai derramado no escritório, os fundos cortes no peito de seu velho, aquela figura medonha abaixada na frente do defunto do pai provando o sangue com os dedos, a espada samurai, tudo voltando como se fosse um filme.

  Foi inconscientemente  que as lágrimas escorrerem friamente pelo seu rosto. Não estava chorando, mas elas simplesmente caíram de seus olhos, como se sua criança interior estivesse em prantos dentro dele.

  A manhã cinza do velório foi a pior coisa para ele. Milhões de pessoas lhe desejando força. Pessoas que nunca vira na vida fingindo sentirem algum sentimento de dó e compaixão.

  Lembrava-se bem quando o Mortdecai Reid, um alto senhor de traços bem nórdicos, mas queimado de sol que chamavam mais a atenção para os olhos claros e a barba farta branca ,lhe tocou o ombro e apenas lhe sorriu em compaixão. O filho da puta não tirou a roupa de caçador nem para o funeral de seu pai.

  Mortdecai era o mais antigo amigo de seu pai, mas mesmo assim nunca entendera o por quê dele nunca ter dado uma ajuda mais efetiva depois da tragédia. 

  Após o enterro nunca mais o viu, nem lhe deu nenhuma assistência a distancia ou conselho para não seguir os passos de seu velho.Se era tão amigo, por quê não ajudou o garoto órfão? Sabia que Jack tinha perdido a mãe ainda recém-nascido. 

  Apenas aquele maldito sorriso.Foi a única coisa que Reid, o "melhor amigo" de seu pai, pode lhe oferecer.

  O pai era o melhor caçador de demônios que Jack um dia conhecera. Sabia que essa nem sempre tinha sido a profissão do velho, que era um aventureiro desde jovem junto com outros senhores da época, mas depois da morte de sua amada esposa, o velho Creed decidiu seguir este lado mais....obscuro.

  Não foi diferente com Jack. A morte era um convite envelopado em preto para a família Creed caçar o pesadelo de outros para esquecer os seus.

O que era apenas alguns passos, transformou-se em horas na mente de Jack até chegar ao túmulo. Agaichou-se vagarosamente e com a mão trêmula arrancou a erva daninha que crescera envolta da pedra escura da lápide. 

Lá estava, o túmulo do grande Thomas A. Creed.Lá estava o túmulo do maior caçador de demônios que o mundo já recebera. Lá estava o túmulo....de seu pai.


André Bludeni

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