Todos temos momentos em que tudo para ao nosso redor. O sangue gela e os segundos demoram a se passar, como numa manhã de domingo. Ele sempre ouvia as pessoas falando destes momentos com desdém, mas nutria internamente uma enorme inveja, por nunca ter vivenciado algo do tipo. Ouvia as pessoas falando sobre o nascimento de algum filho, uma noite inesquecível ou sobre o amor. Ah, o amor, como as pessoas adoravam estender-se falando sobre o amor e sobre os incríveis benefícios que este as trazia. Ele já havia perdido qualquer esperança de ter um momento destes, até aquela noite peculiar.
Na maioria das vezes ele gostava de passar seus finais de semana sozinho, o movimento nas ruas era muito grande, e o mundo, em geral, gosta de aproveitar o véu noturno dos finais de semana pra vestir suas máscaras e sair pela rua fazendo coisas vergonhosas das quais se arrependerão no futuro. Aproveitava então para sair em dias de semana, havia percebido que as pessoas que aceitavam a companhia do gosto amargo da ressaca em uma quarta-feira, por exemplo, eram mais interessantes no seu mundo do que aquelas que passavam buzinando com a música alta toda sexta-feira. Preferia nem pensar muito nas do sábado, essas lhe davam tédio mortal.
Era uma terça-feira vazia de fim de ano, onde grande parte da cidade já havia se espremido em alguma praia próxima, ou ido o mais distante possível, para poder tirar fotos que causariam ciúmes em alguém, talvez, coisas estranhas que as pessoas sempre fizeram, fazem e continuarão a fazer . Naquela noite as paredes de seu quarto o encaravam mais do que o normal, então resolveu sair para tomar uns tragos e fazer o tempo passar mais rápido. Procurou pelo velho bar conhecido no centro da cidade, onde os poucos bêbados presentes não dariam atenção a mais um deles, e perdeu alguns segundos em sua porta, tomando fôlego para a maratona alcoólica que o esperava. As luzes amareladas dos postes davam um tom mais bucólico àquela paisagem, e ele procurou não gastar muito tempo pensando nisso, com medo de que aquele aspecto depressivo o levasse de volta para casa. Foi quando tudo aconteceu.
Ela saiu de lugar nenhum, como uma sombra, falando alto e numa velocidade diferente da que estava acostumado. Era estranho como aquilo o hipnotizava, a forma como se mexia, os trejeitos, tudo parecia que já havia sido ensaiado com sua consciência anteriormente, sem sua anuência. Aquele ali era seu habitat natural, ela estava confortável, justo onde ele ia para esquecer um pouco o vazio dos seus dias. Depois de conversar por alguns segundos com as pessoas à porta, ela se voltou para ele e não disse nada, apenas sorriu. Aquela seria a primeira vez que trocariam olhares, e ele nunca mais esqueceria. Ele se sentiu encarando um vulcão em plena erupção, na profundeza daqueles olhos claros ele poderia ser perder durante dias, sem se preocupar com mais nada. O tempo finalmente havia parado para ele, era como se na tempestade constante da sua vida, uma mar em calmaria o arrebatasse, ele simplesmente estava ali, e não estava mais no controle da situação, e aquilo não o incomodava de forma alguma.
Demorou alguns minutos para conseguir entrar depois da troca de olhares, ela havia se sentado numa mesa perto do balcão, um local familiar para ele, onde seus sonhos haviam ido para morrer. Sentou-se de cabeça baixa, não tinha a menor ideia de como proceder. Ele havia se relacionado com outras garotas durante a vida, mas nunca nenhuma delas havia obliterado sua alma daquela forma. Ele sabia que nunca mais seria o mesmo, e isso o deixava sem ar, por medo de viver à sombra daquele momento, sem nada poder fazer. Ela sentou-se ao seu lado e pediu um drinque, de uma maneira tão confortável que ele imaginou que talvez ela houvesse despejado alguns sonhos naquele balcão também, em algum dia no passado.
-Um último drinque, por favor. - ela disse olhando para ele e sorrindo.
-...oi?! - balbuciou o pobre coitado ainda perdido.
-'Um último drinque por favor.'. Foi a última frase que o Jack Daniel's disse. É isso que você tá tomando, não?
-Ah, sim. É. - sua cabeça latejava, ele precisava dizer algo além do óbvio, qualquer coisa, fosse ela terrível, era melhor do que aquele silêncio.
-Você... vem sempre aqui? - perguntou o pobre coitado, já cerrando os olhos. De todas as coisas que ele podia ter dito, ele disse algo que nem mesmo seu avô, àquela altura já morto e enterrado teria dito.
-Venho, mas acho que eu nunca te vi por aqui, eu teria lembrado de uma cara engraçada como a sua. - disse entre risos, notando o claro desconforto do pobre coitado.
-Vou considerar isso um elogio, faz tanto tempo que eu não converso com ninguém que até uma bomba dessas me cai bem.
-Considere. - ela sorria fechando os olhos, de uma forma que seu rosto sorria todo junto, e aquilo era a coisa mais bonita que ele já havia visto em sua vida. Ele não conseguia de forma alguma evitar sorrir junto dos vários sorrisos que ela lhe entregou naquela noite.
Depois de alguns drinques, ele havia se esquecido completamente do aspecto soturno do bar. O seu balcão de desilusões havia se tornado seu mais novo templo, ali ele iria para lembrar dos sorrisos, da conversa e dos olhos que demoliram tudo que anos de trevas haviam construído dentro dele. Naquela noite seu tempo havia parado.
Foram juntos para a sua casa, e no dia seguinte, ele estava sozinho novamente. As lembranças da noite anterior eram como uma neblina que o cercava, mas a qual ele não podia abraçar, não podia sentir mais seu calor. Ele percebeu que só sabia o primeiro nome dela, mais nada. Ele não tinha como encontrá-la, e isso lhe atormentou. Sentou-se do lado da janela e fitou a rua por algumas horas, tentando entender tudo que lhe havia acontecido. Ele não conseguia se lembrar da última vez que havia perdido o controle sobre a sua vida, e aquilo o animava. Por pior que as coisas pudessem ser, seriam diferentes de como vinham sendo. Fechou os olhos e sentiu o vento batendo em seu rosto. Era o mar de calmaria, dentro de um vulcão em erupção. Aquele seria o primeiro dia do fim de sua vida.
Guilherme Gale

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